Prazeres
Físicos na Quarta-feira de Cinzas
Rodrigo Leite Gouvêa
Goethe
Se
você é de exatas e tenta, sem êxtito, convencer seus amigos de que a Física
pode ser bela e atraente, não deixe de ler este texto. Se você, mesmo não
sendo de exatas, é um apaixonado pelo desenvolvimento das idéias, curte demais
um debate, adora pôr o raciocínio a funcionar, esta mensagem também é pra
você. Se você não é nem um nem outro, sinto, mas meu site não irá lhe
ajudar em nada.
Sábado
passado (18/02) tive a feliz oportunidade de assistir à peça A Dança do
Universo, de Oswaldo Mendes. Quem tiver a mesma sorte (ela estará no Teatro
Folha em Março) poderá tanto se divertir quanto exercitar a cachola. Porém,
a diversão não é leve nem leviana, a peça apenas não fará com que nossos
neurônios, do nada, ensaiem múltiplas combinações novas. Mas que aponta o
caminho pra que isso aconteça, não há a menor dúvida.
Pra
início de conversa, vale a pena a gente conferir a Cena 2:
CENA
2
O
EMBATE ENTRE A IGNORÂNCIA E O CONHECIMENTO
NARRADOR O
LUCRÉCIO
AGOSTINHO
Existe uma
LUCRÉCIO
AGOSTINHO
Acima da tentação da carne, meu Deus, existe também outra vã e
perversa tentação. É a tentação da mente, que se esconde sob o nome de
conhecimento ou ciência.
LUCRÉCIO
O medo que nos deixa aterrorizados é fruto da ignorância.
AGOSTINHO
Ah, triste vaidade, curiosidade perversa, que faz nascer nos homens o
desejo de conhecer os segredos da
Natureza. Pra que serve conhecê-los? Pra nada.
LUCRÉCIO
Por não compreender as causas de tudo o que acontece na terra e no céu,
as pessoas atribuem os infortúnios e até as maravilhas da sua vida aos
caprichos de algum deus.
AGOSTINHO
Mas, talvez, por ser inútil, e não servir pra nada, é que o
conhecimento seduz os homens...
LUCRÉCIO No dia em que compreendermos que
nada pode surgir do nada, nós teremos uma noção mais precisa de como formas
materiais são criadas ou de como os acontecimentos não dependem da ajuda de um
deus.
AGOSTINHO Eu mesmo, meu Deus, confesso. Muitas vezes a minha
curiosidade é tentada pelas coisas mais triviais e insignificantes. E quantas
vezes eu não caio nessa tentação? Livrai-me dela, meu Deus! Livrai-me dela!
LUCRÉCIO Virá o dia em que a mente
humana, pela imaginação e pelo raciocínio, descobrirá o que existe no longínquo
e infinito espaço, aquela região onde o intelecto sonha penetrar e para onde a
mente, livre, estende seu vôo em direção ao desconhecido.
AGOSTINHO
Livrai-me, Deus, da tentação da mente que contamina até a religião
e nos leva a vos pedir milagres, pelo simples prazer de ver milagres. Por tudo
isso, não me interessa mais estudar os movimentos celestes...
NARRADOR
Chega! Chega de serem dominados por dogmas e autoridades. Olhem para o
mundo!
ATOR
1
O quê?
NARRADOR
Roger Bacon
ATOR
1
Roger Bacon, frade franciscano do século 13, muito diferente de Santo
Agostinho.
NARRADOR Roger Bacon se tornaria "O profeta da ciência".
Roger Bacon...
E
isso é só uma amostra do que você pode conferir ao vivo. Sim, claro. Também
acho que o santo Agostinho mereça uma defesa. Que a teoria que ele elabora
sobre o tempo é instigante e permanece, até hoje, dando corda na nossa percepção.[i]
O próprio Bertrand Russell, famoso faz-tudo (matemático, filósofo, educador),
considera que sua teoria subjetiva do tempo é tanto melhor exposta
quanto mais clara que a de Kant (que viveu 1300 anos depois do santo).[ii]
Mas, calma. Não percamos a essência da crítica. O que se põe em cheque não
é a obra de Agostinho como um todo, mas sim a disputa: pesquisa subjetiva x
pesquisa objetiva. Se alguém falar pra você não assistir à peça,
baseando-se em detalhes superficiais (como o elogio, talvez, desmedido a Roger Bacon),[iii]
cuidado! Estarão querendo te enganar (perdoe-me o coloquialismo).
O
problema que se associa a santo Agostinho é o subjetivismo como método único
de investigação científica. E basta! A crítica ao santo, em si, não importa
tanto. Temos de entender esta cena como uma alegoria. Se nós perdermos tempo
com isso, deixaremos de aproveitar o que de melhor a peça nos oferece. O alerta
de A Dança do Universo é que muitas vezes negligenciamos a importância
da investigação objetiva. Leia novamernte a epígrafe deste texto. Sacou? Com
certeza todos nós já passamos por uma situação dessas. Sabe quando você
corrige um colega seu e, em vez de ele ficar feliz e satisfeito com a explicação,
passa a te olhar torto? O que ele está fazendo, mesmo que inconscientemente, é
pondo a questão (o objeto, a coisa ampla, "objetivismo") abaixo de
interesses particulares (o eu, a coisa restrita, "subjetivismo").
Se
você, assim como o Bertrand Russell, guarda ressalvas a Roger Bacon, há outro
filósofo que tece elogios generosos à pesquisa científica: Francis Bacon (não,
não são irmãos, este viveu 3 séculos depois daquele), que escreveu um texto
bem bacana sobre o assunto (Novum Organum). Numa síntese didática, mas
pouco precisa, da introdução: nossos intelectuais perdem muito tempo debruçados em
analisar as mais antigas descobertas passivamente -uma vírgula aqui, outra lá,
uma sentença desconexa, outra detravessada- desperdiçando, desse modo, a
chance de se dedicarem a novas descobertas, que poderão nos mostrar como esses
parâmetros, a que dedicamos tanto empenho, são desatualizados e insuficientes.[iv]
Alguém
deve estar dizendo que este artigo, assim como a peça, tece um elogio ao
ceticismo. Não vejo motivo algum para me envergonhar disso. Aliás, o que
significa ser cético? Cético é igual a pessimista? Cético é aquele que
abomina todo e qualquer tipo de crença? Para que não haja confusões, é
preciso que falemos a mesma língua. Cético vem do grego (Skeptikós) e
significa simplesmente: observador, aquele que observa. Ser cético,
cienficamente, é buscar explicações que possam ser compartilhadas
RACIONALMENTE com mais pessoas. Logo, ser cético nada tem a ver com ser
pessimista (pessimismo e otimismo são dois lados do mesmo achismo) e também o
cético precisa de suas crenças. Afinal, para dedicar a vida a qualquer coisa
(mesmo à ciência), é preciso que se acredite sinceramente nessa escolha.
Talvez seja exagero dizer que a ciência é uma caixinha de surpresas, mas
certamente ela sempre nos guarda algo de imprevisível. E isso não escapa à peça
do Oswaldo Mendes ("A ciência não tem todas as respostas [...] às vezes
é preciso raciocinar errado pra chegar ao resultado certo", diz um de seus
personagens).
Só
pra fechar: não pense que ser cético é ser chato, é deixar de ver a poesia
da vida. Eu poderia indicar alguns livros pra provar o contrário: Tio Tungstênio,
de Oliver Sacks, que conta suas descobertas de infância no mundo da química; a
coleção Mortos de Fama, da Companhia das Letras (pra nós que somos
aprendizes no mundo das exatas, livros infanto-juvenis que explicam Da Vinci,
Newton, Einstein). Poderia ainda indicar algum do Richard Dawkins ou do António
Damásio, mas para isso preciso lê-los primeiramente. Contudo, não preciso
fazer nada disso. Na cena 8 de A Dança do Universo, você verá uma
conversa entre Albert Einstein (o cientista) e Charles Chaplin (o artista). É
essa a síntese que a peça propõe: ciência e arte. Não por acaso o nome do
projeto é Arte Ciência no
Palco.
Uma peça sem apologia barata. Apenas um belo dum beliscão para fugirmos mais um pouco da ignorância. Será que a gente se vê lá?
P.S.
Pra quem não puder ver, o texto da peça saiu publicado pela Editora
Núcleo. Confira.
[i] Para saber mais: Santo Agostinho, Confissões (livro 11, cap. 14 ["O que é o tempo?"]).
[ii] Para saber mais: Bertrand Russell. História da Filosofia Ocidental (livro 2, cap. 4 ["A filosofia e a teologia de Santo Agostinho"]).
[iii] Para saber mais: Bertrand Russell. História da Filosofia Ocidental (livro 2, cap. 14 ["Os escolásticos franciscanos"]).
[iv] Para compreender melhor a que se refere Francis Bacon, imagine que pesquisadores derrubem a parede de uma pirâmide, encontrando assim uma sala. É lúcido que este cômodo mereça ser investigado. Mas não podemos nos contentar com ele; há mais paredes a serem derrubadas, há novas salas a serem descobertas e, enfim, investigadas. Associe derrubar paredes com a pesquisa científica; vistoriar a sala com a divulgação da descoberta. Os dois movimentos são importantes. O que se critica é o comodismo de quem se conforma em analisar eternamente o mesmo cubículo.